O homem é aquilo que pensa - James Allen
Os homens não atraem aquilo que eles querem, mas sim aquilo que eles são.
Seus caprichos, fantasias e ambições são distorcidos a cada passo, mas seus
pensamentos e desejos mais secretos nutrem-se de seu próprio alimento, quer
seja ele sujo ou limpo. A “divindade que forja nossos destinos” está em nós
mesmos; é o nosso próprio “eu”. O homem é manietado somente por si mesmo:
pensamento e ação são os carcereiros do Destino — se forem vis, aprisionam;
são também os anjos da Liberdade — se forem nobres, libertam. O que o
homem obtém não é aquilo que ele deseja e pede a Deus, mas o que por justiça
recebe. Seus desejos e preces só serão gratificados e atendidos se se
harmonizarem com seus pensamentos e atos.
Vejamos o exemplo de alguém que esteja na mais extrema pobreza. Anseia
ardentemente por melhoras no seu ambiente e no seu lar, mas está sempre
faltando ao trabalho, e acha justo tentar enganar o patrão sob o pretexto de que
não recebe um salário suficiente. Esse indivíduo não compreende os mais
simples rudimentos daqueles princípios que constituem a base da verdadeira
prosperidade, e não só se acha totalmente despreparado para emergir da sua
miséria como na realidade estará atraindo para si misérias ainda piores por
abrigar e traduzir em atos pensamentos indolentes, fraudulentos e covardes.
Imaginemos um homem rico que tenha sido vítima de uma enfermidade
dolorosa e renitente resultante de sua gula. Está disposto a pagar altas somas para
se ver livre dela, mas não quer sacrificar seus pendores glutônicos. Quer
satisfazer o seu gosto por iguarias requintadas e antinaturais e ao mesmo tempo
conservar a saúde. Esse sujeito está totalmente despreparado para ter saúde,
porque ainda não aprendeu os princípios básicos de uma vida saudável.
Temos agora um empregador de mão de obra que adota medidas
desonestas para evitar o pagamento de salários justos aos seus operários e, na
esperança de alcançar maiores lucros, reduz esses salários. Tal empresário está
também totalmente despreparado para a prosperidade, e quando se surpreender
falido, tanto no que diz respeito à reputação quanto aos seus bens, lançará a culpa
às circunstâncias sem saber que é o único responsável pelas condições em que se
encontra.
Bons pensamentos e atos jamais produzirão maus resultados; maus
pensamentos e atos jamais produzirão bons resultados. Isso equivale a dizer que
do trigo só poderá nascer trigo e de urtigas só urtigas. Nós entendemos essa lei no
mundo natural e trabalhamos com ela; mas poucos são os que a entendem no
mundo mental e moral (embora sua ação nele seja igualmente simples e
inevitável), e portanto não cooperam com ela
O homem só começa a ser homem quando para de lamentar-se e de
proferir injúrias, e começa a buscar a justiça oculta que regula sua vida. E na
medida em que adapta sua mente a esse fator regulador, deixa de acusar os
outros de serem a causa de sua situação, e começa a edificar-se com
pensamentos fortes e nobres; para de espernear contra as circunstâncias e
começa a usá-las como ajudas para alcançar um progresso mais rápido e como
um meio de descobrir dentro de si próprio forças e possibilidades ocultas.
...pensamentos de medo, dúvida e indecisão
cristalizam-se em hábitos fracos, covardes e irresolutos, os quais se concretizam
em circunstâncias de fracasso, indigência e servil dependência; pensamentos
preguiçosos cristalizam-se em hábitos de falta de higiene e desonestidade, os
quais se concretizam em circunstâncias de sujeira e mendicância; pensamentos
de ódio e condenação cristalizam-se em hábitos de acusação e violência, os quais
se concretizam em circunstâncias de injúria e perseguição; pensamentos egoístas
de todos os tipos cristalizam-se em hábitos de egocentrismo que se concretizam
em circunstâncias mais ou menos infelicitantes.
S em que o pensamento esteja ligado ao objetivo não haverá realização
inteligente. A maioria das pessoas deixa que o barco do pensamento vogue “à
deriva” no oceano da vida. A falta de objetivo é um vício, e semelhante deriva
deve cessar para todo aquele que quiser desviar-se da catástrofe e da destruição.
Quem não tiver em sua vida nenhum objetivo central, será presa fácil de
mesquinhas preocupações, medos, problemas e autopiedade, indícios, todos
esses, de fraqueza que levarão, tão certamente quanto pecados deliberadamente
planejados (embora por diferentes rotas), ao fracasso, à infelicidade e a perdas,
pois a fraqueza não pode perdurar num universo movido pela energia.
Todo homem deve conceber em seu íntimo um objetivo legítimo e se dispor
a alcançá-lo. Deverá fazer desse objetivo o ponto central de seus pensamentos.
Poderá ter a forma de um ideal espiritual ou de um objeto mundano, mas,
conforme seja sua tendência no momento, deverá focalizar firmemente suas
forças mentais nesse objetivo ante o qual ele próprio se colocou. Deverá fazer
desse objetivo seu dever supremo e dedicar-se à sua consecução, não permitindo
que seus pensamentos se dispersem em efêmeras fantasias, anseios e
imaginações. Essa é a estrada real que nos leva ao autodomínio e à verdadeira
concentração do pensamento. Ainda que por sucessivas vezes deixe de atingir sua
meta (o que forçosamente acontecerá até que a fraqueza seja vencida), ofortalecimento que isso trará ao seu caráter será a medida do seu verdadeiro
êxito, e lhe dará uma nova perspectiva para futuros poderes e triunfos.
Os que não estão preparados para a apreensão de um alto objetivo devem
fixar seus pensamentos no perfeito cumprimento de seus deveres, por mais
insignificantes que suas tarefas lhes possam parecer. Só dessa forma podem os
pensamentos ser concentrados e focalizados, a resolução e a energia
desenvolvidas e, uma vez conseguido isso, não haverá nada que não possa ser
realizado.
A fraqueza e a força de um homem, a pureza e a
impureza, são suas e não de outro homem; são produzidas por ele próprio e não
por outrem; e só podem ser modificadas por ele mesmo, nunca por outro
homem. Sua situação também lhe é própria, e não de outra pessoa. Seu
sofrimento e sua felicidade se desenvolvem em seu íntimo. Como ele pensa,
assim ele é; como continuar a pensar, assim permanecerá.
O irrefletido, o ignorante e o indolente, vendo apenas os efeitos aparentes
das coisas e não as coisas em si, falam em sorte, em fortuna, em acaso. Vendo
um homem enriquecer, dizem: “Que sujeito de sorte!” Notando que um outro se
intelectualiza, exclamam: “Como ele é bem dotado!” E percebendo o espírito
religioso e a ampla influência de outro, observam: “Como a sorte o ajuda a cada
passo!” Não veem as provações e os fracassos e as lutas que tais homens
voluntariamente enfrentaram para alcançar a sua experiência; não têm
conhecimento dos sacrifícios que eles fizeram, dos inauditos esforços que
desenvolveram, da fé que exercitaram para que pudessem vencer o que parecia
invencível e realizar a Visão de sua alma. Desconhecem as trevas e os
sofrimentos; veem apenas a luz e a alegria, e chamam a isso “sorte”; não veem a
longa e árdua jornada, mas apenas divisam a meta risonha, e chamam-na “boa
estrela”; não compreendem o processo, mas só percebem o resultado, e
chamam-no “acaso”.
S erenidade de espírito é uma das mais belas joias da sabedoria. É o resultado de
um longo e paciente esforço de autocontrole. Sua presença é indício de
experiência madura e de um conhecimento bem pouco comum das leis e modos
de operar do pensamento.
Um homem se torna calmo na medida em que passa a compreender a si
mesmo como um ser de pensamento evoluído, pois semelhante conhecimento
exige a compreensão dos outros como resultado do pensamento, e na medida em
que ele desenvolve uma compreensão correta e vê cada vez mais claramente as
relações internas das coisas através da lei de causa e efeito, deixa de se agitar e
de se irritar, de se preocupar e de se queixar, e se torna equilibrado, firme,
sereno.
O homem calmo, tendo aprendido a governar-se, sabe como adaptar-se aos
outros; e estes, por sua vez, reverenciam sua força espiritual e sentem que podem
aprender com ele e confiar nele. Quanto mais tranquilo um homem se torna,
maior o seu sucesso, sua influência, sua capacidade para o bem. Até mesmo o
comerciante comum verá crescer a prosperidade de seu negócio na medida em
que desenvolve um maior autocontrole e equanimidade, pois as pessoas sempre
preferem lidar com alguém cujo comportamento é marcantemente igual.
O homem forte e calmo é sempre amado e reverenciado. Assemelha-se a
uma árvore que espalha sua sombra em terra sequiosa ou a uma rochaacolhedora em meio à tempestade. “Quem não amará um coração tranquilo,
uma vida equilibrada e cheia de doçura? Não importa se chove ou se faz sol ou
quais sejam as mudanças por que passam os que possuem essas bênçãos, pois
permanecem sempre dóceis, serenos e calmos. Esse raro equilíbrio de
personalidade a que chamamos serenidade é a última lição da cultura; é o
florescimento da vida, o frutificar da alma. É tão preciosa quanto a sabedoria,
mais desejável do que o ouro — sim, do que o mais fino ouro. Quão
insignificante nos parece a mera busca do dinheiro se comparada a uma vida
serena — uma vida que habita as profundezas do oceano da Verdade, sob as
ondas, fora do alcance das tempestades, na Eterna Calma!
“Quantas pessoas conhecemos que amarguram suas vidas, que arruínam
tudo o que existe de doce e de belo com temperamentos explosivos, que
destroem o seu próprio equilíbrio pessoal e envenenam o próprio sangue! Seria o
caso de perguntar se a grande maioria das criaturas não arruína a própria vida e
estraga a própria felicidade por falta de autocontrole. Como são poucas as
pessoas bem equilibradas que encontramos na vida, como é raro encontrar-se
aquele equilíbrio que é a característica de um caráter aprimorado!”
Sim, a humanidade se agita com incontrolada paixão, tumultua-se sob o
desgovernado sofrimento, é varrida pelos vendavais da ansiedade e da dúvida. Só
o homem sábio, só aquele cujos pensamentos são controlados e purificados, é
capaz de impor obediência às borrascas e vendavais da alma.
Almas sacudidas por tempestades, onde quer que estiverdes, sejam quais
forem as condições em que viveis, sabei disto — no oceano da vida as ilhas da
Bem-aventurança estão sorrindo e as ensolaradas praias de vosso ideal esperam
por vós. Segurai com mão firme o leme do pensamento. Na barca de vossas
almas repousa o Piloto-Mestre; ele apenas dorme: despertai-o. Autocontrole é
força; Pensamento Reto é domínio; Calma é poder. Dizei a vossos corações:
“Aquietai-vos, e ficai em paz!”

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